Eu definiria a patologização da internet como a atitude, por parte de profissionais de saúde mental, de diagnosticar determinados aspectos da navegação na rede, como "transtorno mental". A patologização da Internet vem sendo exercida por muitos pesquisadores e profissionais de Psicologia e Psiquiatria e não prevê penalizações legais, porém a desqualificação / estigmatização social do internauta e do ato de se manter conectado, além do que estes profissionais consideram capaz de afetar a percepção e os relacionamentos, no que denominam "realidade objetiva". Tal movimento de patologização da Internet é emanado para o mundo todo, principalmente, pelas American Psychiatric Association e American Psychology Association, entidades que representam a Psicologia e a Psiquiatria hegemônicas nos Estados Unidos. Para compreendermos melhor as restrições à Internet por parte destes profissionais estadunidenses: em termos epistemológicos, a produção do conhecimento pela psiquiatria e psicologia americanas, possui dois aspectos centrais. De um lado o fato de haver elevado, à condição de dogma "imexível", a noção segundo a qual apenas deve ser pesquisado aquilo que possa ser observado e, de outro lado, uma ênfase acentuada na adaptação dos indivíduos à sociedade. Uma das conseqüências disto foi uma acentuada valorização de um determinado modo de estruturação mental nas pessoas, no qual a percepção e a consciência orientam-se intensamente para a realidade objetiva (o mundo exterior, ou a realidade física e concreta que percebemos à nossa volta), em detrimento da realidade subjetiva (o mundo interno, lugar de nossos desejos, fantasias, devaneios). Sob este aspecto, a reputação que os Estados Unidos têm de serem - juntamente com as sociedades islâmicas - o país mais obcecado do Mundo em reprimir o consumo de drogas, não se deve apenas em função dos efeitos negativos destas últimas sobre o organismo, nem sómente ao viés moralista presente em sua cultura, herdado de sua tradição religiosa protestante. Isso porque a condenação que a maioria de profissionais estadunidenses de saúde mental faz, no tocante ao uso de drogas, se deve sobretudo ao fato de seu consumo permitir, ao usuário, um maior contato com a dimensão interna, subjetiva, da psique. Assim, para muitos profissionais estadunidenses de saúde mental, a Internet - assim como as drogas - permitiria ao navegante mergulhar numa outra dimensão, além daquela da realidade objetiva. Assim, para estes profissionais de saúde mental, passar muitas horas conectado equivaleria a passar horas "viajando" com o auxílio de substâncias psicoativas. Em acréscimo, desligar-se da realidade objetiva também seria algo análogo ao que ocorre na psicose, em que o "louco" não apenas ignoraria a realidade objetiva, como, além disso, viveria imerso em seu universo interior - que estes profissionais interpretam como "fuga da realidade", expressão que estendem ao ato de se manter conectado por bastante tempo.
Psicólogos e psiquiatras norte-americanos passaram, assim, a estigmatizar e a desclassificar socialmente o internauta, pela rotulação diagnóstica através das categorias de - principalmente - "dependência" e/ou "comportamento impulsivo", a partir de uma transposição literal do capítulo do DSM IV sobre adição e dependência de drogas, ao uso da Internet. Muitos internautas, notadamente aqueles que permaneciam mais tempo conectados, passaram a ser vistos por muitos psicólogos e psiquiatras - no Brasil inclusive -, como drogaditos necessitando de intervenção psicoterápica e medicamentosa. Gostaria de me alongar mais em torno desta questão, porém isto seria desviar do tema principal deste trabalho e mereceria um outro artigo, à parte. Pontuaria no entanto que a leitura de muitas das pesquisas acerca do comportamento do internauta apontam para a existência de generalizações infundadas, desconhecimento - tal como como costuma ocorrer no Judiciário - do que seja a internet, bem como uma separação inexistente, na realidade, entre "presencial" e "virtual" - acompanhada de uma hierarquização na qual as vivências conectadas supostamente não possuiriam valor, tal como as presenciais.